Vamos começar pelo óbvio: a Rússia é um país capitalista, governado por uma clique oligárquica que passou os últimos 30 anos a pilhar a riqueza criada por gerações de trabalhadores soviéticos. Vivemos na era do imperialismo, fase final do capitalismo, e a Rússia, como grande potência, ambiciona manter e expandir as suas "esferas de influência". Não há nada de progressista na invasão da Ucrânia e a guerra, para além de todo o cortejo de horrores, destruição e mortes, é contrária aos interesses dos trabalhadores, sejam eles ucranianos, russos ou de outra nacionalidade qualquer. Por isso nos opomos à invasão Russa.
Dito isto, passemos ao menos "óbvio" na narrativa da propaganda Ocidental: Putin não é o novo "Hitler", esta não é "a guerra de Putin" e a NATO não é uma aliança militar "defensiva". A propaganda de guerra tem insistentemente martelado o mantra da "agressão injustificada e não provocada".
Há dias, porém, Angela Merkel deitou esse argumento por terra ao inadvertidamente (?) confessar a verdade:
O acordo de Minsk 2 (patrocinado pela França e pela Alemanha) foi, em discurso direto de Merkel, "uma tentativa de dar tempo à Ucrânia para se tornar mais forte". Em 2015, com o exército ucraniano à beira da derrota militar durante a guerra civil que eclodiu no Donbass, os poderes ocidentais propuseram um roteiro de paz que garantiria o fim da guerra civil e a permanência das regiões separatistas no seio da Ucrânia, embora com um novo modelo federalista de Estado, de modo a garantir às minorias russófonas do país o direito à sua cultura, modo de vida e autonomia.
Mas, pelos vistos, os Estados Unidos e os seus vassalos europeus nunca quiseram uma resolução pacífica do conflito e apenas pretenderam ganhar tempo para a "Ucrânia tornar-se mais forte", até porque Merkel confessou as suas dúvidas sobre a possibilidade da NATO poder proporcionar na altura [2014/15] o volume de "ajuda" que tem prestado em 2022...
Convém relembrar que Porochenko, o ex-presidente ucraniano que assinou os acordos de Minsk já confessara há meses esta mesma versão: os acordos de Minsk (que podiam ter resolvido o conflito da Ucrânia em 2015) foram um logro que permitiram reconstruir e fortalecer o exército ucraniano para que mais tarde este pudesse sufocar o Donbass, retomar a Crimeia pela força das armas, em suma: para fazer a guerra à Rússia!
Resumindo e concluindo: a UE e os Estados Unidos "congelaram" o conflito em 2015, tornaram a Ucrânia um membro de facto (embora não de jure...) da NATO, passaram anos a financiar, a armar e a treinar o exército ucraniano para a guerra. Quando não ignoraram, provocaram a Rússia e agora hipocritamente choram lágrimas de crocodilo por causa duma guerra que eles desejaram...
As declarações bombásticas de Merkel deveriam ter provocado uma comoção qualquer na Europa. Contudo, à propaganda de guerra não interessa dar destaque à verdade, ou esmiuçar sequer o significado das palavras da antiga chanceler alemã. Na peça dedicada a esta polémica entrevista, a alemã e estatal empresa de comunicação Deutsche Welle... consegue integralmente ignorar o assunto. Patético? Patético!

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