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sábado, 4 de março de 2023

Se a Ucrânia deixar de combater desaparece?

Não! Muitas outras nações foram militarmente derrotadas, aceitaram termos de paz desvantajosos, perderam até territórios e não desapareceram. A França em 1870 ou a Alemanha tanto em 1918 como em 1945 são disso exemplo.  Uma eventual derrota da Ucrânia amputaria dela alguns territórios, mas não ao seu desaparecimento. E apesar dos horrores e do rasto de morte e destruição que qualquer guerra provoca, não obstante os crimes de guerra (que todas as fações combatentes cometem em todas as guerras), não decorre um genocídio da população ucraniana. A hiperbolização das consequências duma derrota ucraniana são propaganda de guerra destinadas a manter as opiniões públicas e as classes trabalhadoras atreladas a uma guerra que visa, não ajudar a Ucrânia, mas sangrar a Rússia até ao último ucraniano.


Defendemos o direito à autodeterminação do povo da Ucrânia?

Sim! Defendemos o direito à autodeterminação de TODO o povo da Ucrânia: tanto as populações de Kiev e Lviv, como da Crimeia ou do Donbass têm o direito à sua autodeterminação. Infelizmente, uma das consequências da guerra resulta no exacerbar do nacionalismo – seja ucraniano ou russo. 

A Ucrânia nasceu como Estado pluriétnico em 1991. Mas uma vitória russa fará desaparecer o “elemento ucraniano” naquelas regiões que forem incorporadas. Contudo, não tenhamos ilusões: uma vitória ucraniana fará desaparecer o “elemento russo” quer no Donbass, quer na Crimeia – as recentes proibições e restrições de música, literatura e cultura russa não podem deixar dúvidas sobre isso. Ganhe quem ganhar, os êxodos populacionais, perseguições étnicas e cancelamentos culturais farão parte dos despojos da guerra. 

Para nós marxistas o direito à autodeterminação enquadra-se (e nem sequer se sobrepõe) no âmbito da luta de classes, da luta pela emancipação da classe trabalhadora. Defendemos a unidade dos trabalhadores por cima de quaisquer diferenças de língua, cultura ou nacionalidade. 

Não lutamos pela “grande Rússia” ou pela “glória à Ucrânia”, mas pela revolução socialista que expropriará os oligarcas dos dois lados da fronteira e derrubará as cliques que agitam o nacionalismo como um veneno que divide os trabalhadores para os melhor explorar e que os utiliza como carne para canhão das suas ambições nacionalistas e imperiais.


quinta-feira, 2 de março de 2023

Ucrânia: uma luta entre democracias e autocracias?

Não! Na Ucrânia, uma dúzia de partidos políticos foram banidos ou suspensos, opositores políticos presos, órgãos de imprensa encerrados, censura militar imposta, direitos sindicais restringidos, confissões religiosas perseguidas, direitos democráticos de minorias nacionais eliminados. Tudo isto por um dos Estados mais corruptos da Europa, se não do mundo!

Valores como “democracia”, “liberdade” ou “direitos humanos” são apenas pretextos agitados pela propaganda que visam disfarçar e ocultar os reais interesses envolvidos: os Estados Unidos e a NATO ingerem ou invadem países em função dos recursos que podem pilhar, das oportunidades de negócios, dos mercados e das zonas de influência que podem conquistar: do golpe de Estado de Pinochet no Chile em 1973, passando pela mentira das “armas de destruição maciça” que justificou a invasão do Iraque até à ocupação ilegal de parte da Síria em 2023.


quarta-feira, 1 de março de 2023

A condenação da Invasão Russa, o "Direito Interncional" e a "inviolabilidade" das fronteiras...

 Condenamos a invasão?

Absolutamente! Porém não nos limitamos a condenar a invasão russa, condenamos também a ingerência e destabilização da Ucrânia pelo governo americano (e os seus aliados europeus) que conscientemente desejaram, prepararam e provocaram a confrontação com a Rússia.

A guerra na Ucrânia não é apenas uma guerra entre ucranianos e russos: é sobretudo uma guerra por procuração em que os ucranianos são a carne para canhão usada pelo Ocidente/NATO na disputa com a Rússia pelo controlo dos recursos, mercados e despojos da própria Ucrânia; pela afirmação mundial!

Sem o apoio da NATO e do Ocidente, o exército ucraniano colapsaria em dias. É o Ocidente que treina, fornece, municia, arma, providencia dados de inteligência, dirige e até paga os salários aos soldados ucranianos. Há, atualmente na Ucrânia, um combate entre o exército russo e um exército da NATO que fala ucraniano

Temos de defender o Direito Internacional?

Não! O chamado “Direito Internacional” é uma burla: um estratagema que os poderes imperialistas usam para iludir as opiniões públicas e justificarem todas a violações que cometem ao “Direito Internacional” ao mesmo tempo que invocam a sua defesa! Aliás! A ONU nunca foi capaz de solucionar nenhum conflito militar e, inclusivamente, chegou a participar numas quantas guerras.

As fronteiras são invioláveis?

Só quando calha e dá jeito. Como exemplos recentes temos que as fronteiras da Sérvia não foram “invioláveis”: a NATO bombardeou o país durante meses, ocupou a região do Kosovo e em seguida promoveu a sua declaração de independência. Israel ocupa a Palestina e os montes Golã da Síria. Marrocos anexou o Sahara Ocidental. Os checos separaram-se dos eslovacos, o Sudão do Sul abandonou o resto do Sudão e a Eritreia tornou-se independente da Etiópia. As antigas URSS e Jugoslávia foram desmembradas em duas dúzias de novas nações.

As fronteiras não são imutáveis, são construções da luta de classes e das correlações de força no devir histórico. Odessa nunca fora ucraniana até 1919, Lviv nunca fizera parte da Ucrânia (da Rússia, ou da URSS) até 1939 e a Crimeia nunca fora ucraniana até 1954. Não deixa de ser irónico como tanta gente profundamente anticomunista está disposta a lutar até à morte (ou, pelo menos, até à morte dos ucranianos) pelas fronteiras estabelecidas por Lenin, Estaline Kruschev…

A missão dos comunistas não é a de defender as fronteiras do Estado-nação da burguesia, mas de abolir as fronteiras que, a par da propriedade privada, constituem os grandes óbices ao desenvolvimento harmonioso das forças produtivas.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Será Putin o "novo Hitler"?

De acordo com a propaganda de guerra do Ocidente, Putin é o “novo Hitler”. O que não é surpreendente: Milosevic, Sadam Hussein, Kadafi, Kim Jong Un, Bashar Al-Assad, todos eles já foram o novo “Hitler”. E como um vilão dos filmes de James Bond, Putin quer restaurar o “império soviético” e depois conquistar todo o mundo.

Ora, o imperialismo no período pós-revolução colonial tende a abdicar da ocupação e gestão direta de territórios, preferindo corromper líderes locais e garantir direitos de preferência, na exploração de recursos e mercados através da chantagem da dívida externa, da liberalização das pautas aduaneiras, privatizações e desregulação laboral e “assistência militar” – e note-se como as ocupações militares do Afeganistão e do Iraque falharam redondamente.

Putin ou Joe Biden são os representantes políticos das respetivas oligarquias, defendendo e lutando por recursos, mercados e esferas de influência: não são uma espécie de encarnação irracional de todo o mal que existe no mundo. 

E já agora, enquanto vice-presidente, Biden manteve as ocupações do Iraque e Afeganistão, bombardeou a Síria e a Líbia. Já como presidente, Biden reenviou militares americanos para a Somália, mantem soldados americanos na Síria a roubar petróleo e começou um proxy war com a Rússia através da Ucrânia.

Quanto à Rússia, anexou a Crimeia em 2014 e, se for bem-sucedida, anexará o Donbass, regiões habitadas por maiorias russófonas. A ideia de que a Rússia, se pudesse, conquistaria toda a Ucrânia e a seguir as demais antigas repúblicas da URSS e depois a Europa de Leste, é fantasiosa e nem sequer se enquadra nas novas formas de dominação imperialista. Mesmo que o quisesse, o governo russo não o pode: não tem meios nem para tais conquistas, muito menos para manter eternamente a subsequente ocupação militar. “Putin, o novo Hitler”? Tanto quanto Biden o será: apenas propaganda de guerra que visa manter o apoio das opiniões públicas a uma guerra que se eterniza.

6. Putin tem de ser travado?

Sim. Pelo próprio povo russo. Putin é há mais de 20 anos o representante político da oligarquia e do capitalismo russos: merece todo a nossa oposição, mas a tarefa de derrubá-lo cabe aos trabalhadores russos.

É verdade que, face a derrotas militares, os regimes políticos podem a cair: as monarquias russa, alemã, austríaca ou turca sucumbiram à derrota na Iª guerra mundial. Mas nem sempre sucede: Os Estados Unidos foram derrotados no Vietname e no Afeganistão e a oligarquia americana não soçobrou.

Por outro lado, as bombas da NATO não trouxeram a liberdade, a paz e o progresso ao Afeganistão, Iraque, à Líbia ou à Sérvia. Porque haveriam de consegui-lo na Ucrânia? E não há sequer garantias que a guerra contra a Rússia possa ser ganha. Apostar a vida dos ucranianos numa vitória sobre a Rússia, por si só, seria já imoral, mas imaginar que a NATO irá trazer a democracia à Rússia ou, daqui a amanhã, à China ou ao Irão é, no mínimo, naïf. 

Para além disso, se aceitamos que a derrota de Putin se pode apenas fazer através da confrontação militar, isso significa que teremos de aceitar infinitamente o militarismo e a expansão dos gastos militares. Porque hoje a ameaça vem da Rússia e, dados os inevitáveis choques de ambições imperialistas, amanhã a ameaça virá da China. Ou do Irão. Ou talvez do Brasil.

Numa época de crise capitalista em que nos dizem não haver dinheiro para a saúde, reformas, salários, etc. é simplesmente grotesco que se apoie (mesmo indireta e inadvertidamente como certa Esquerda) o desvio de recursos para alimentar a máquina militar da burguesia: O governo da Alemanha propõe-se “investir” 100 biliões de euros na Defesa a partir dum fundo especial e a França propõe-se a aumentar os gastos militares em 40% até 2030. Se deixarmos, isto será só o princípio!

Portanto, e mais uma vez, tornamos à luta de classes. Nós marxistas defendemos os interesses da classe trabalhadora e a sua mobilização consciente através dos métodos e meios de luta da própria classe.  Apoiar um bando imperialista contra os seus rivais é submeter a classe trabalhadora aos interesses, políticas e valores da sua classe dominante.  

Quando Bloco de Esquerda, Livre ou MAS defendem o envio de armas para a Ucrânia ou sanções contra a Rússia, objetivamente contribuem para “esforço de guerra” da NATO, defendendo as mesmas políticas que Biden, Von der Lyen ou Boris Johnson e, objetivamente, defendendo a vitória da NATO na guerra da Ucrânia, porque uma vitória do regime de Kiev seria, efetivamente, uma vitória também e principalmente dos seus “sponsors” do Ocidente.

Para quem não sabe ou não se lembra, a NATO e os Estados Unidos são a força militar mais reacionária, terrorista e perigosa do mundo: Sérvia, Somália, Sudão, Afeganistão, Iraque, Líbia ou Síria são apenas os exemplos mais flagrantes e mais recentes do carácter “não defensivo” desta autodesignada “aliança defensiva”.

Putin tem de ser derrotado? Novamente, sim! Pelos próprios trabalhadores russos que souberam, no passado, derrubar outros Czares. Tal como teremos de ser nós, os trabalhadores da Europa e dos Estados Unidos a derrubar os nossos imperialistas – e não as bombas da Rússia ou da China.

 


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Q&A parte 2 - A guerra da Ucrânia

 1)      Uma guerra não provocada?

Esse tem sido um dos argumentos da propaganda de guerra: a Rússia cometeu uma invasão não provocada e injustificada. Apesar dos vários intervenientes ucranianos e ocidentais terem já abertamente declarado que sempre procuraram resolver pela via militar o separatismo no Donbass e a secessão da Crimeia, a propaganda continua a martelar sobre este ponto porque é imperioso manter a opinião pública na ilusão de que há um só poder imperialista a disputar a Ucrânia – e não dois…

 A verdade é que o Ocidente passou os últimos anos a financiar, a  armar e a  treinar o exército ucraniano. A reconciliação com o Donbass foi rejeitada e, pelo contrário, foram construídas as fortificações militares mais extensas no planeta. Nas vésperas do início da guerra, metade do exército ucraniano estava concentrado no Donbass… para retomá-lo pela força!  Em Setembro de 2021, pouco anrtes do inicio da invasão, os Estados Unidos e Ucrânia assinavam um acordo de cooperação militar. Por esta altura a Ucrânia já era um membro de facto da NATO, embora ainda não de jure.

O Estado Russo sentia-se crescentemente ameaçado pela modernização e reforço militar da Ucrânia e os seus laços com a NATO.  Não podia perder a face no Donbass, isto é, permitir a supressão da rebelião do Donbass por Kiev e, muito menos, a perda da Crimeia. Se tal acontecesse, Putin e a sua entourage seriam apeados do poder - E a administração americana tinha disto consciência...

Finalmente, para além de razões de prestígio ou valores “estratégicos”, também existiam (e existem!) importantes interesses económicos da burguesia russa na Ucrânia. Enfim, a adesão da Ucrânia à NATO, poderia significar a instalação de bases com mísseis nucleares capazes de atingir Moscovo em menos de 5 minutos – e que o governo de Kiev seguramente aceitaria, dada a sua animosidade contra a Rússia e as disputas territoriais entre ambos.

Como resposta, Moscovo enviou um pedido formal de negociações aos Estados Unidos exigindo por escrito o compromisso 1) da Ucrânia não entrar para a NATO 2) a NATO retirar as suas bases do Leste da Europa, nomeadamente para as fronteiras anteriores a 1997 3) reatar o acordo sobre mísseis de médio alcance  que os Estados Unidos tinham abandonado 4) a implementação dos acordos de Minsk 5) o reconhecimento da Crimeia como parte integrante da Rússia.

Com exceção da questão da Crimeia nenhum dos demais pontos colocava, problemas de princípios ou desafios existenciais quer aos Estados Unidos, quer aos seus aliados europeus. Porém, as propostas russas foram liminarmente rejeitadas: nem sequer foram merecedoras de discussão. A 24 de Fevereiro o governo russo resolveu decidir impor uma solução militar ao braço-de-ferro com a Ucrânia e com o Ocidente.

Quando se fala na “guerra não provocada” que a Rússia lançou, reflita-se no seguinte: o que fariam os Estados Unidos se a China financiasse e organizasse um golpe de estado no México, que guindasse ao poder extremistas antiamericanos reivindicando a devolução do Texas e da Califórnia e a quem a China fornecesse treino e equipamento militar, estando em vias de estabelecer uma aliança militar?

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Guerra da Ucrânia Q&A - perguntas e respostas

 1)      Quando começou esta guerra?

Esta guerra rebentou em 2014. Quem o confirmou foi até recentemente o próprio Secretário-Geral da NATO.

Começou por um golpe de Estado patrocinado pelos Estados Unidos da América que, durante anos, investiu biliões numa operação de “mudança de regime” e deu todo o apoio a um movimento suportado nas ruas pela extrema-direita nacionalista. Entre muitos outros indícios e  exemplos, a ingerência norte-americana ficou demonstrada por escutas telefónicas tornadas públicas e nunca desmentidas ou pelo apoio ao vivo e a cores, em plena Praça Maidan, de várias e variadas personalidades: de John McCain a Ana Gomes...

O presidente democraticamente eleito teve de fugir do país, dezenas de deputados eleitos nunca mais puderam retomar o seu lugar no parlamento. Os partidos mais influentes na vida política ucraniana até então – o PC Ucraniano e o Partido das Regiões – foram banidos, até hoje! Uma vez no poder, a primeira medida do novo governo (não eleito) foi a proibição do russo como língua oficial, não obstante ser a língua materna dum terço da população.

 A "caça ao russo" foi prática intimidatória durante semanas e meses. Tristemente emblemático foi o incêndio na Casa dos Sindicatos em Odessa provocado por hordas nacionalistas e que vitimou dezenas de pessoas, umas queimadas vivas, outras falecendo em resultado de terem tentado escapar das chamas saltando das janelas.

 Sem surpresa, a repressão do nacionalismo ucraniano provocou uma guerra civil num país multiétnico. Se o regime de Kiev era apoiado pelo Ocidente, os rebeldes do Donbass foram apoiados pela Rússia. Por essa altura já a Crimeia (de enorme valor histórico e estratégico) se tinha separado da Ucrânia através dum referendo organizado pelas autoridades pró-russas e pela ocupação militar, de facto, da península por forças russas.

 No Donbass, a guerra civil custou a vida a cerca de 15 mil pessoas. Em 2015, com a participação da França e da Alemanha foi assinado um acordo de paz, cujo protocolo previa o reconhecimento da autonomia das regiões do Donbass no quadro da Ucrânia e a futura constituição federalista do país. 

Recentemente, ambos os presidentes da Ucrânia (desde então), Poroshenko primeiro e   Zelensky depois, vieram a público dizer que nunca foi sua intenção respeitar e implementar o acordo e que tudo não passou dum estratagema para “ganhar tempo” e permitir o fortalecimento militar da Ucrânia. Os mediadores ocidentais de Minsk 2, Merkel e Hollande disseram o mesmo: ganhar tempo, equipar militarmente a Ucrânia, preparar a guerra seguinte: a guerra que agora vivemos!

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

Somos pela Ucrânia!

Quem defende a paz é sistematicamente acusado de ser pró Rússia, agente de Moscovo, bot do Putin e até pior. Na verdade, quem defende a paz, defende a Ucrânia. 

A guerra poderia ter sido evitada há um ano atrás: bastava que o regime de Kiev tivesse dito: 1) não vamos entrar na NATO 2) Vamos respeitar os acordos de Minsk 3) vamos reconhecer que o povo da Crimeia quer fazer parte da Federação Russa. 

Com exceção do 3º ponto, os outros dois não deveriam ter sido um problema existencial para o regime de kiev e, mesmo o 3º ponto, poderia ter ficado sujeito a uma posterior negociação qualquer. O problema é que a razão de ser do regime de kiev - chegado ao poder em 2014-  foi sempre o de combater os russos.

Pior! Os seus sponsors ocidentais desde o início guindaram, sustentaram, financiaram e armaram o atual regime de Kiev para combater a Rússia, tal como hoje já vai sendo reconhecido pelos seus líderes de então. 

De resto, bastava que os Estados Unidos tivessem dito há um ano: 1) Não vamos acolher a Ucrânia na NATO 2) vamos retirar bases, material e pessoal militar da fronteira com a Rússia 3) Vamos retomar o acordo de limitação de mísseis nucleares de médio alcance que Donald Trump rasgou... E provavelmente a guerra teria sido evitada.

Infelizmente TODOS os principais protagonistas (Biden, Putin, Zelensky, Von der Liar, Boris Johnson) quiseram a guerra. Quem quis e quem quer continuar com a guerra não defende a Ucrânia, defende o sacrifício da Ucrânia! 

Quem defende a continuação da guerra, defende que a juventude (e não só...) ucraniana continue a derramar o seu sangue e a sacrificar as suas vidas, defende que o país continue a ser arrasado, que a sua economia continue a colapsar, que o seu governo continue a endividar-se por gerações e que milhões de refugiados permaneçam fora do seu país para que se consiga derrotar a Rússia. 

E se a Rússia não for derrotada? E se a guerra durar mais 2, 3 ou 10 anos? Bakhmut, Mariupol, Donetsk não valem as centenas de milhares de vítimas desta guerra, não valem a  ruina dum país e muito menos o risco duma confrontação aberta, global e nuclear entre a Rússia e a NATO.

Putin tem de ser derrubado? Sem dúvida! Pelo seu próprio povo. Pelo próprio povo russo que no passado soube derrubar outros Czares, tal como nós em Portugal derrubámos a ditadura sem precisar de intervenções da NATO. 

Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria: os resultados desastrosos das intervenções americanas /NATO estão à vista de todos. Com a Ucrânia não será diferente. É urgente acabar com a atual carnificina, parar a guerra militar e acelerar a luta de classes: a única "guerra" capaz de derrubar injustiças, tiranos, impérios e deixar no seu lugar um mundo melhor! 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

Até ao último ucraniano...


Uma orquestrada euforia tomou conta das redes sociais e também da imprensa burguesa do Ocidente. A NATO prometeu enviar alguns tanques (serão 150?) para derrotar a Rússia. No seu tempo, Hitler enviou cerca de 3500 na Operação Barbarossa. E mesmo assim falhou. 

Mas nem é preciso recuar muito no tempo: ainda no ano passado a NATO enviou centenas de tanques de fabrico soviético modernizados - só da Polónia foram mais de 200! Mudaram o rumo da guerra? Quantas vezes nos foram apresentadas as "armas milagrosas" que iriam mudar o curso do conflito? Foram Javelins, Stingers, Drones Bayaktar, Howiterz M777, Himars... e agora tanques? 

 Mas se alguém no seu perfeito juízo pensa que será esta remessa de 100, 150 ou 200 tanques irá derrotar os russos, desengane-se e por 2 motivos:

1) podem ser destruídos como qualquer outro tanque, como aliás os Leopard já o foram e nem sequer por um exército convencional, mas por guerrilheiros do ISIS em luta contra forças turcas bem treinadas no seu manuseamento e sem as dificuldades logísticas que a Ucrânia enfrentará...

2) os russos podem colocar muitos mais tanques no terreno, acompanhados duma inegável superioridade em termos de artilharia, meios aéreos, etc. 

A "Novaya Gazeta" não é um órgão que nutra qualquer simpatia pelo regime de Moscovo: o seu editor-chefe já foi agraciado com o Prémio Nobel da Paz por se opor a Putin. Numa peça recente e bastante crítica do governo russo, explicam-nos que, não obstante todas as dificuldades que vão relatando, de acordo com as suas fontes a Rússia pode produzir entre cerca de 250 tanques modernos anualmente, bem como modernizar outros 600 tanques do stock de 8000 que o Ministério da Defesa tem armazenados.

Isto quer então dizer que, mesmo que a produção não viesse a ser aumentada, a Rússia poderá continuar a colocar no campo de batalha 850 tanques (entre modernos e modernizados) nos próximos 12 anos! E se alguém no seu perfeito juízo acha que os Leopards e Abrams a enviar serão o state of the art  das respectivas classes... bom... esse alguém que entre em contacto, que nós temos uma Torre em Belém para vender a bom preço!...

P.S.: depois do anúncio de ontem sobre os tanques, os ucranianos começaram já hoje a pedir  aviões de combate. Não temos dúvidas que lá chegaremos... Resta saber até onde a NATO quererá ir neste braço-de-ferro com a Rússia? Até ao patamar nuclear?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

A guerra para Totós 1

 Nesta secção iremos enfrentar uma questão pertinente: como explicar a guerra para os totós? Tarefa difícil na era das redes sociais que ainda imbecilizam mais a informação, acrescentando aos tradicionais soundbites dos tabloides (aka mass média), um manancial de fake news, memes, trolls, bots, tiktoks, hashtags, trends, tudo multiplicado pelo algorítimo e dividido pelos 280 caracteres do Twitter. Quanto mais a informação e análise são reduzidas ao nível do slogan publicitário, mais poderosa a propaganda se torna... Mãos à obra, portanto!

"Há um país invadido e um país invasor"

Este é daqueles truísmos supostamente mais autoevidentes: se há um país invadido e um país invasor, é nossa obrigação moral ficar do lado e apoiar os invadidos, certo...? Errado!

Em 1914 o império da Áustria-Hungria declarou guerra e invadiu a pequena Sérvia. Devido aos sistemas de alianças da época, estar nessa altura do lado do país invadido, era estar ao lado da Rússia , da França e da Inglaterra que disputavam a hegemonia mundial com a Alemanha e os seus aliados (Áustria-Hungria e Turquia). Estar do lado do país invadido, era estar do lado dos maiores impérios da época. Como é que alguém de esquerda poderia ou pode conceber tal coisa, ultrapassa-me!

Em 1959, face à repressão sobre a resistência comunista no Vietname do Sul, o Vietname do Norte começou a enviar armamento e militares pelo trilho Ho Chi Minh. Havia um país invadido e um país invasor. Mas neste caso, ficar do lado do país invadido significava apoiar a ditadura fantoche ao serviço dos Estados Unidos e, mais tarde, a própria intervenção militar direta americana. Como é que alguém de esquerda poderia ou pode conceber tal coisa, ultrapassa-me!

Em 1961 a União Indiana invadiu Goa, Damão e Díu que eram territórios portugueses. Havia um país invadido e um país invasor. Estar em 1961 do lado do país invadido, era estar do lado de Salazar e do império colonial português. Como é que alguém de esquerda poderia ou pode conceber tal coisa, ultrapassa-me!

Muitos outros exemplos poderiam ser apresentados ao longo da História. Há países invadidos e invasores, mas isso não esgota o problema. A guerra (que é sempre um evento trágico) tem de ser compreendida pelas suas motivações materiais, pelas classes e pelos interesses envolvidos, pelos fins políticos que se procuram alcançar por meios militares.

Quando o secretário-geral da NATO afirma que "uma vitória da Rússia será uma derrota da NATO" , então o que está dizendo, verdadeiramente, é que a guerra da Ucrânia é uma guerra entre a Rússia e a NATO, onde os ucranianos são a carne para canhão. Há um país invadido e um país invasor. Estar em 2022 do lado do país invadido é estar do lado da NATO e do império americano que, já depois do fim da guerra fria, bombardearam, invadiram e ocuparam a Somália, o Sudão, a Sérvia, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria. Como é que alguém de esquerda poderia ou pode conceber tal coisa, ultrapassa-me!

Mas se estes exemplos não bastam, vamos ao argumento para Totós: se tu és adepto do Sporting, porque quererias apoiar o Benfica ou o Porto num jogo entre eles? Se pudesses escolher... perdiam os dois, ou não?