Nesta secção iremos enfrentar uma questão pertinente: como explicar a guerra para os totós? Tarefa difícil na era das redes sociais que ainda imbecilizam mais a informação, acrescentando aos tradicionais soundbites dos tabloides (aka mass média), um manancial de fake news, memes, trolls, bots, tiktoks, hashtags, trends, tudo multiplicado pelo algorítimo e dividido pelos 280 caracteres do Twitter. Quanto mais a informação e análise são reduzidas ao nível do slogan publicitário, mais poderosa a propaganda se torna... Mãos à obra, portanto!
"Há um país invadido e um país invasor"
Este é daqueles truísmos supostamente mais autoevidentes: se há um país invadido e um país invasor, é nossa obrigação moral ficar do lado e apoiar os invadidos, certo...? Errado!
Em 1914 o império da Áustria-Hungria declarou guerra e invadiu a pequena Sérvia. Devido aos sistemas de alianças da época, estar nessa altura do lado do país invadido, era estar ao lado da Rússia , da França e da Inglaterra que disputavam a hegemonia mundial com a Alemanha e os seus aliados (Áustria-Hungria e Turquia). Estar do lado do país invadido, era estar do lado dos maiores impérios da época. Como é que alguém de esquerda poderia ou pode conceber tal coisa, ultrapassa-me!
Em 1959, face à repressão sobre a resistência comunista no Vietname do Sul, o Vietname do Norte começou a enviar armamento e militares pelo trilho Ho Chi Minh. Havia um país invadido e um país invasor. Mas neste caso, ficar do lado do país invadido significava apoiar a ditadura fantoche ao serviço dos Estados Unidos e, mais tarde, a própria intervenção militar direta americana. Como é que alguém de esquerda poderia ou pode conceber tal coisa, ultrapassa-me!
Em 1961 a União Indiana invadiu Goa, Damão e Díu que eram territórios portugueses. Havia um país invadido e um país invasor. Estar em 1961 do lado do país invadido, era estar do lado de Salazar e do império colonial português. Como é que alguém de esquerda poderia ou pode conceber tal coisa, ultrapassa-me!
Muitos outros exemplos poderiam ser apresentados ao longo da História. Há países invadidos e invasores, mas isso não esgota o problema. A guerra (que é sempre um evento trágico) tem de ser compreendida pelas suas motivações materiais, pelas classes e pelos interesses envolvidos, pelos fins políticos que se procuram alcançar por meios militares.
Quando o secretário-geral da NATO afirma que "uma vitória da Rússia será uma derrota da NATO" , então o que está dizendo, verdadeiramente, é que a guerra da Ucrânia é uma guerra entre a Rússia e a NATO, onde os ucranianos são a carne para canhão. Há um país invadido e um país invasor. Estar em 2022 do lado do país invadido é estar do lado da NATO e do império americano que, já depois do fim da guerra fria, bombardearam, invadiram e ocuparam a Somália, o Sudão, a Sérvia, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria. Como é que alguém de esquerda poderia ou pode conceber tal coisa, ultrapassa-me!
Mas se estes exemplos não bastam, vamos ao argumento para Totós: se tu és adepto do Sporting, porque quererias apoiar o Benfica ou o Porto num jogo entre eles? Se pudesses escolher... perdiam os dois, ou não?
Sem comentários:
Enviar um comentário