De acordo com a propaganda de guerra do
Ocidente, Putin é o “novo Hitler”. O que não é surpreendente: Milosevic, Sadam
Hussein, Kadafi, Kim Jong Un, Bashar Al-Assad, todos eles já foram o novo
“Hitler”. E como um vilão dos filmes de James Bond, Putin quer restaurar o
“império soviético” e depois conquistar todo o mundo.
Ora, o imperialismo no período
pós-revolução colonial tende a abdicar da ocupação e gestão direta de
territórios, preferindo corromper líderes locais e garantir direitos de
preferência, na exploração de recursos e mercados através da chantagem da
dívida externa, da liberalização das pautas aduaneiras, privatizações e
desregulação laboral e “assistência militar” – e note-se como as ocupações
militares do Afeganistão e do Iraque falharam redondamente.
Putin ou Joe Biden são os representantes
políticos das respetivas oligarquias, defendendo e lutando por recursos,
mercados e esferas de influência: não são uma espécie de encarnação irracional
de todo o mal que existe no mundo.
E já agora, enquanto vice-presidente,
Biden manteve as ocupações do Iraque e Afeganistão, bombardeou a Síria e a
Líbia. Já como presidente, Biden reenviou militares americanos para a Somália,
mantem soldados americanos na Síria a roubar petróleo e começou um proxy war
com a Rússia através da Ucrânia.
Quanto à Rússia, anexou a Crimeia em 2014
e, se for bem-sucedida, anexará o Donbass, regiões habitadas por maiorias
russófonas. A ideia de que a Rússia, se pudesse, conquistaria toda a Ucrânia e
a seguir as demais antigas repúblicas da URSS e depois a Europa de Leste, é
fantasiosa e nem sequer se enquadra nas novas formas de dominação imperialista.
Mesmo que o quisesse, o governo russo não o pode: não tem meios nem para tais
conquistas, muito menos para manter eternamente a subsequente ocupação militar.
“Putin, o novo Hitler”? Tanto quanto Biden o será: apenas propaganda de guerra
que visa manter o apoio das opiniões públicas a uma guerra que se eterniza.
6. Putin tem de ser travado?
Sim. Pelo próprio povo russo. Putin é há
mais de 20 anos o representante político da oligarquia e do capitalismo russos:
merece todo a nossa oposição, mas a tarefa de derrubá-lo cabe aos trabalhadores
russos.
É verdade que, face a derrotas militares,
os regimes políticos podem a cair: as monarquias russa, alemã, austríaca ou
turca sucumbiram à derrota na Iª guerra mundial. Mas nem sempre sucede: Os
Estados Unidos foram derrotados no Vietname e no Afeganistão e a oligarquia
americana não soçobrou.
Por outro lado, as bombas da NATO não
trouxeram a liberdade, a paz e o progresso ao Afeganistão, Iraque, à Líbia ou à
Sérvia. Porque haveriam de consegui-lo na Ucrânia? E não há sequer garantias
que a guerra contra a Rússia possa ser ganha. Apostar a vida dos ucranianos
numa vitória sobre a Rússia, por si só, seria já imoral, mas imaginar que a
NATO irá trazer a democracia à Rússia ou, daqui a amanhã, à China ou ao Irão é,
no mínimo, naïf.
Para além disso, se aceitamos que a
derrota de Putin se pode apenas fazer através da confrontação militar, isso
significa que teremos de aceitar infinitamente o militarismo e a expansão dos
gastos militares. Porque hoje a ameaça vem da Rússia e, dados os inevitáveis
choques de ambições imperialistas, amanhã a ameaça virá da China. Ou do Irão.
Ou talvez do Brasil.
Numa época de crise capitalista em que
nos dizem não haver dinheiro para a saúde, reformas, salários, etc. é
simplesmente grotesco que se apoie (mesmo indireta e inadvertidamente como
certa Esquerda) o desvio de recursos para alimentar a máquina militar da
burguesia: O governo da Alemanha propõe-se “investir” 100 biliões de
euros na Defesa a partir dum fundo especial e a França
propõe-se a aumentar os gastos
militares em 40% até 2030. Se deixarmos, isto será só
o princípio!
Portanto, e mais uma vez, tornamos à luta
de classes. Nós marxistas defendemos os interesses da classe trabalhadora e a
sua mobilização consciente através dos métodos e meios de luta da própria
classe. Apoiar um bando imperialista contra os seus rivais é submeter a
classe trabalhadora aos interesses, políticas e valores da sua classe
dominante.
Quando Bloco de Esquerda, Livre ou MAS
defendem o envio de armas para a Ucrânia ou sanções contra a Rússia,
objetivamente contribuem para “esforço de guerra” da NATO, defendendo as mesmas
políticas que Biden, Von der Lyen ou Boris Johnson e, objetivamente, defendendo
a vitória da NATO na guerra da Ucrânia, porque uma vitória do regime de Kiev
seria, efetivamente, uma vitória também e principalmente dos seus “sponsors” do
Ocidente.
Para quem não sabe ou não se lembra, a
NATO e os Estados Unidos são a força militar mais reacionária, terrorista e
perigosa do mundo: Sérvia, Somália, Sudão, Afeganistão, Iraque, Líbia ou Síria
são apenas os exemplos mais flagrantes e mais recentes do carácter “não
defensivo” desta autodesignada “aliança defensiva”.
Putin tem de ser derrotado? Novamente,
sim! Pelos próprios trabalhadores russos que souberam, no passado, derrubar
outros Czares. Tal como teremos de ser nós, os trabalhadores da Europa e dos
Estados Unidos a derrubar os nossos imperialistas – e não as bombas da Rússia
ou da China.