
Vadym Prysktaiko não é um tipo qualquer, mas um diplomata de topo do regime de Kiev, tendo (entre outros cargos) sido Chefe da missão ucraniana junto da NATO ou ministro dos negócios estrangeiros. Hoje é embaixador em Londres e, numa entrevista à
Newsweek, entre os vários tópicos da propaganda de guerra, temperados com cinismo diplomático q.b., deixou escapar a verdade:
"Estamos em guerra há quase um ano. Estamos a sofrer baixas a torto e a direito. Não anunciamos quantas dessas baixas são militares ou civis, mas pode imaginar que os números são enormes, indigeríveis. E as cidades, algumas estão totalmente destruídas."
Mas se o povo ucraniano está a sofrer esta catástrofe, alegrem-se as boas almas porque não será em vão e nós no Ocidente estamos (de acordo com Prystaiko) cheios de sorte, se não repare-se no que o diplomata diz um pouco mais à frente:
"O Ocidente tem uma chance única. Não há muitas nações no mundo que se permitissem o sacrifício de tantas vidas, território e décadas de desenvolvimento pelo propósito de derrotar o arqui-inimigo."
Esta é uma crua e brutal confissão!
O embaixador do regime de Kiev no Reino Unido reconhece que "décadas de desenvolvimento" estão a ser sacrificados nesta guerra. Se acrescentarmos que
a Ucrânia do "pós-guerra" já foi vendida, é caso para perguntar o que de facto mais ameaça o futuro do país: um acordo de paz, mesmo que considerado desfavorável; ou a continuação da guerra, da destruição da Ucrânia, da literal venda dos seus recursos e da hipoteca, "por décadas", de "
desenvolvimento" e da sua soberania?
Mesmo que ganhe a guerra e expulse o exército russo, o futuro da Ucrânia está traçado: ser um Estado-cliente dos Estados Unidos, uma fonte de matérias-primas e de mão de obra barata, empenhando a pouca riqueza que ficar no país na manutenção duma máquina militar que seja uma ameaça permanente a Moscovo.
De facto, não é pela "soberania", "independência" ou "futuro" que o povo ucraniano está a combater, a sofrer e a morrer. Soberania, independência, futuro foram já penhorados. E o que fez o regime de Kiev para evitá-lo? Nada!
1) Sabotou os acordos de Minsk;
2) Discriminou a minoria russófona do país durante 8 anos - abolindo o russo como língua oficial, perseguindo ativistas, encerrando estações de televisão, banindo partidos, literatura ou música;
3) Passou anos a armar-se para enfrentar militarmente a Rússia, para derrotar pela força das armas o separatismo no Donbass e conseguir recuperar a Crimeia;
4) Nas semanas anteriores ao início da guerra insistiu na reivindicação de entrada na NATO, provocando a Rússia com declarações incendiárias e com o recrudescimento exponencial do bombardeamento ao Donbass;
Muita gente satiriza o passado de ex-comediante de Zelensky. Mas Zelensky não é um palhaço, antes
uma marioneta bem paga. O regime que preside começou com um golpe de estado em 2014, apoiado e financiado pelos Estados Unidos. Zelesnky e a sua trupe só se manterão no poder, só continuarão a gerir as "doações" Ocidentais, enquanto houver guerra. Não estão interessados na paz e vão continuar a sacrificar o povo ucraniano
as long as it takes para que o Ocidente tenha a "chance" de derrotar o seu "arqui-inimigo"!
Agora, nunca é demais relembrar que a Rússia também não é "inocente". Aquando do golpe Maidan em 2014, comportou-se como uma "grande potência" e tratou de assegurar os seus interesses "vitais" anexando a Crimeia. Depois, mais tarde, apoiou o separatismo do Donbass, ainda que de modo calculista Putin não quissesse reconhecer as suas declarações de independência (até Fevereiro de 2022...) mas usá-lo como contrapeso interno à trajetória pró-ocidental do regime de Kiev.
... Mas aqui chegados, relembro: neste blog nós não somos nem "pró-russos", nem "pró-ucranianos". Não lutamos por uma Crimeia russa ou um Donbass ucraniano. Lutamos pelo internacionalismo proletário, pela paz e pelo socialismo.
E sabemos isto: "o inimigo principal está dentro de casa"! É nossa missão combater os nossos imperialistas, tal como é tarefa dos trabalhadores russo lidar com o seu governo. Se queremos a paz, teremos de derrubar os nossos exploradores - tanto no Ocidente como em Moscovo. Ou pelo menos, forçá-los a uma negociação de paz. Isso não acontecerá enquanto (deste ou "do outro lado") aceitarmos os sacrifícios que a guerra impõe e tivermos como horizonte não o fim da chacina, mas a capitulação incondicional do "outro".